As televisões estão inundadas de cenas da ocupação militar dos morros cariocas. Os jornais publicam diariamente estatiscas de mortes e fugas de bandidos e justificam esses atos como intervenção estatal promotora da paz. O incrível é que nesta contabilidade não entram as execuções de pessoas inocentes, gente trabalhadora que foram e são vítimas do capitalismo paralelo em que se transformou o nartráfico. Comunidades que foram vítima da violência de traficantes, hoje são vítimas da ação repressora do Estado.
O problema dos morros e demais comunidades pobres é antigo. O Estado e a sociedade como um todo nunca mostraram o menor interesse em resolver o problema desses aglomerados humanos. Pelo contrário. No passado, os excluídos sociais foram empurrados para essas então longínquas localidades, como forma de mantê-los afastados dos locais de moradia e lazer das classe dominante.
A eles, o Estado nunca teve a preocupação de ampará com educação, emprego, moradia digna, saude, cultura e lazer.
A ocupação destes desamparados e ermos locais foi idêntica em qualquer parte do Brasil. Para inlustrar, vale lembrar à Fortaleza de finais do século XIX, quando milhares de retirantes esfomeados, vitimados pela seca, aportaram nas ruas e praças da "Bela desposado do sol", a nossa Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.
As autoridades de então, trataram de construir guetos o mais distante possível das "famílias de bem" e da sociedade rica. Construiram verdadeiros campos de concentração. Nestes locais foram isolados os pobres sertanejos. Assim nasceram os Pirambús e tantas outras favelas que os jornais estampam como redutos de criminalidade.
No Rio de Janeiro não foi diferente. Extinta oficialmente a escravidão negra, os negros, agora "libertos" sem ter onde viver, começaram a se amontoar nestes locais. Era a única alternativa que lhes restavam como meio de sobrevivencia. Os senhores da lavoura não os iriam sustentar, nem lhes dar emprego, até porque necessitavam de mão de obra qualificada. O Governo não se interessava por qualquer tipo de assistência a esses desvalidos e muito menos os indústriais davam-lhes empregos, já que eram desqualificados para a empreitada que o capitalismo exigia e o mercado de trabalho do recente capitalismo brasileiro estava abundante da mão de obra operária européia.
Para não morrer de fome, restou aos ex-escravos, o autoexilio nos morros cariocas. Nascia assim as grandes favelas na cidade maravilhosa. A esses excluídos não restou outra alternativa a não ser viver a margem da lei. Pegar na marra o que o capital lhe negava. Fazer suas próprias leis. Insseri-se no mercado de consumo por vias tortas até se tornarem um poder paralelo, um capitalismo ilegal e cruel com a própria comunidade.
Neste momento de euforia em que a mídia vangloria-se do poder das forças de repressão e fecha os olhos para as arbitrariedade contra populações, seria importante saímos da superficialidade e discutirmos as causas do problemas e não apenas seus sintomas. "O homem que nesta terra miserável, vive entre fera, sente a inevitável necessidade de também ser fera", já dizia o poeta paraibano Augusto dos Anjos.